Atravessei aquela manhã de inverno como num sonho
o nevoeiro intenso
a grama úmida derretendo geada sob os pés
o silêncio quase absoluto
quase a b s o l u t o
Um cachorro enrosquilhado dormindo na varanda de uma casa
a fumaça saindo de uma chaminé
e do focinho do cachorro dormindo
como o sono querendo sair de mim
absolutamente sem nenhuma pressa
s e m p r e s s a
Um cavalo solitário pasta tristemente
não sei se realmente está triste ou se sou eu
que o vejo assim
Talvez seja um cavalo feliz vendo a mim
que caminha tristemente
querendo acordar de um sonho
onde há um cavalo que pasta
simplesmente
Como a humanidade caminha
sob o nevoeiro do horizonte invisível
sem saber exatamente o que virá pela frente
eu fui
f u i . . .
Permaneci naquela manhã como numa pintura
pinceladas frias de branco cinza desesperança
de um pintor desconhecido
Não se sabe quanto vale o quadro
pendurado
em um prego enferrujado
na parede suja de uma casa pobre
de um peão solitário
acumulando segundos
dias
e mofo
Eu
o cachorro
o cavalo
a fumaça da chaminé
congelados
pela frio
pelo tempo
pela tinta
O peão não sabe
se o quadro é triste
porque o pintor assim o quis
ou se é ele que assim o vê
e sente
enquanto toma café
e tenta acordar do sono
em uma manhã de inverno
Lá fora
seu cavalo
pasta
provavelmente
Foda-se sempre foi mais ou menos como uma filosofia de vida. Algo como: de onde vim, para onde vou? Resposta: "foda-se!" Tenho que enfrentar o mundo, a sociedade e ainda uma banca com cinco doutores? Penso: "foda-se!" E daí vou indo.
Banalidades, aleatoriedades, inutilidades, letras de música que não viraram música e alguma poesia
segunda-feira, 19 de junho de 2017
segunda-feira, 8 de maio de 2017
domingo, 20 de março de 2016
Sociedade condenada
"Quando você perceber que, para produzir precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em autossacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada."

AYN RAND (1905-1982) filósofa e escritora russo-americana
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
CLARICE E SUAS VERDADES II
"Eu - eu sou a minha própria morte. E ninguém vai mais longe. O que há de bárbaro em mim procura o bárbaro cruel fora de mim. Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às chamas da fogueira. Sou uma árvore que arde com duro prazer. Só uma doçura me possui: a convivência com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite."
(Clarice Lispector, Água Viva, Nova Fronteira, 1980, p.40)
(Clarice Lispector, Água Viva, Nova Fronteira, 1980, p.40)
CLARICE E SUAS VERDADES
"E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos".
(Clarice Lispector, Água Viva, Nova Fronteira, 1980, p.46)
(Clarice Lispector, Água Viva, Nova Fronteira, 1980, p.46)
sábado, 19 de dezembro de 2015
Sobre a reprodutibilidade
Walter Benjamin falou sobre isso. Ele falava na perda da
"aura" da obra artística na era da reprodutibilidade. Ele escreveu
sobre isso bem no auge da expansão do cinema e no momento em que a fotografia
já estava consolidada como uma nova forma de arte e expressão humana. Deveria
reler esse texto, mas agora tenho que escrever sobre ele. Paradoxo. Fico com o
que me lembro.
O quadro da Monalisa está no Museu do Louvre, na França. Nunca o
vi e talvez nunca o verei pessoalmente. No entanto já o vi tantas vezes que ele
já se tornou parte do meu e do imaginário de quase todas as pessoas que habitam
este mundo. Paradoxo da reprodutibilidade. Vi mas não vi.
Em uma dessas revistas semanais (Época, Istoé, não me lembro qual
foi) havia uma matéria sobre uma exposição de Van Gogh. A imagem que abria a
matéria era uma reprodução do quadro "A Noite Estrelada". Uma coisa
linda. A legenda da imagem da revista chamava atenção exatamente para o fato de
que ela era uma reprodução e de que nenhuma tecnologia poderia substituir a
experiência de estar ali, em frente daquela imagem e ver o maravilhoso efeito e
vida que as combinações e fluências de cores do quadro proporcionam. Ou seja, a
reprodução não é, nem nunca será, a coisa em si.
Da mesma forma pode-se pesquisar na Internet e facilmente
encontrar a imagem do quadro de Van Gogh (com inúmeras qualidades de
reprodução, algumas até alterando a qualidade de tonalidades) e depois
colocá-la como plano de fundo da área de trabalho do seu computador. Uma boa
ideia, vou fazer isso. No entanto será sempre uma reprodução, nunca a original.
A aura foi perdida. Em troca disso, ganhamos o acesso a ela. Paradoxos.
Algo mais ou menos parecido aconteceu com a invenção da prensa por
Gutenberg que tornou possível a reprodução mais rápida (antes feita manualmente
por monges) da Bíblia. A consequência, na época, foi a Reforma Protestante, que
não por acaso, protestava a liberdade de interpretação da palavra divina.
Democratiza-se a liberdade de interpretação que, naturalmente,
qualquer produção humana possui. No entanto, ao mesmo tempo, não a possuímos mais. A
não ser como símbolo.
Tenho colada no meu contrabaixo a famosa imagem de Marilyn Monroe
na qual ela tem sua saia levantada pela ventilação do metrô de Nova York. Cena
icônica do cinema. Para mim, entre outras coisas, fundamentalmente ela
representa o desvelamento de uma verdade que existe e é desejada e que se
mostra, não por completo, apenas em sua latente possibilidade. Como é natural
das imagens, essa interpretação ultrapassa o sentido original. Andy Warhol se
apossou dessa possibilidade, fatiou e esquartejou Marilyn em muitas, infinitas
Marilyns. Tornou, também, verdade em verdades, infinitas e múltiplas. No
entanto, sempre iguais. Reproduzíveis. Verdades industriais, embaladas a vácuo
e prontas para consumo.
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