Banalidades, aleatoriedades, inutilidades, letras de música que não viraram música e alguma poesia

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

noite 14

Menina murmura:
― Esperança é cor que não desbota.

Mendigo resmunga:
― Esperança é a mais cínica das crueldades.



Cinicamente tomado de empréstimo de:

Moura, André. Lã de vidro: diálogos poéticos. Rio de Janeiro. Memória Visual, 2009.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

[SONHO DE UMA MANHÃ DE INVERNO]

Atravessei aquela manhã de inverno como num sonho
o nevoeiro intenso
a grama úmida derretendo geada sob os pés
o silêncio quase absoluto

quase a b s o l u t o

Um cachorro enrosquilhado dormindo na varanda de uma casa
a fumaça saindo de uma chaminé
e do focinho do cachorro dormindo
como o sono querendo sair de mim
absolutamente sem nenhuma pressa

s  e  m  p  r e s s a

Um cavalo solitário pasta tristemente
não sei se realmente está triste ou se sou eu
que o vejo assim

Talvez seja um cavalo feliz vendo a mim
que caminha tristemente
querendo acordar de um sonho
onde há um cavalo que pasta
simplesmente

Como a humanidade caminha
sob o nevoeiro do horizonte invisível
sem saber exatamente o que virá pela frente
eu fui

f u i . . .

Permaneci naquela manhã como numa pintura
pinceladas frias de branco cinza desesperança
de um pintor desconhecido

Não se sabe quanto vale o quadro
pendurado
em um prego enferrujado
na parede suja de uma casa pobre
de um peão solitário
acumulando segundos
dias
e mofo

Eu
o cachorro
o cavalo
a fumaça da chaminé 
congelados 
pela frio
pelo tempo
pela tinta

O peão não sabe
se o quadro é triste
porque o pintor assim o quis
ou se é ele que assim o vê
e sente
enquanto toma café
e tenta acordar do sono
em uma manhã de inverno

Lá fora
seu cavalo
pasta
provavelmente

Epitáfios

Adeus, amigos.
Há Deus, amigos?
Há amigos, Deus?
Ah, deu.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Um homem que eu vi

envolto em gosma plastificada
placenta eletrônica binária
produto fabricado na escola
vendido e revendido no mercado
movimentos controlados
pernas finas coitado
marcha apressado
do parto fatídico
ao glorioso fim prometido
naquela propaganda de carro
ele tem a liberdade de ser
limitado pré-programado
destituído do glacê do bolo da vida
da densa cereja fresca uterina
porém
provém
proveta
do suco do fruto da árvore solitária á beira do riacho de sangue purificado nunca provou
já coca-cola com limão se acostumou 
procura a felicidade
procura a felicidade
procura a felicidade
nos filmes de ação
em um dia de verão
nos feriados nacionais
páginas policiais
classificados dos jornais
na vitória do timão
xvideos.com
cocaína
janaína que peitão!
talvez sapatos louis vuitton
é feliz
é triste
é feliz
é triste
ele não sabe
dias compridos demais
dias curtos demais
dias de algodão-doce passeio com a família
dias de sarcasmo secura sem cura
o terno ainda não pago tem cheiro de cigarro e de poluição
ponte aérea porto alegre rio de janeiro
rio de janeiro são paulo
está alegre?
é janeiro?
é são?
queria um porto em um rio só para ele
estrelas contempladas pela janela do avião
o trabalho no escritório
o relatório!
o relatório!
o relatório!
o papo e o chope com os colegas do trabalho
o gosto da liberdade gelada guardada no freezer da alma
quarta com os amigos tem a pelada
a possibilidade da glória do gozo do gol
a lenta volta de carro para casa casamento acasalamento
a hora da penetração
excitação
exitação
êxito
a hora da masturbação
solidão
solidão
solidão
uma única vez o vi sentado em um banco à beira da praia cinzenta e vazia
contemplando os próprios sapatos ou o chão
a pasta preta do escritório firmemente pousada ao seu lado como âncora prisão
ou pássaro agourento que se recusa a ser alado
ele não se mexia ele não se movia
até que fui embora e como estátua de si mesmo ele lá ficou
só dessa vez o vi
só isso eu vi
o resto
imaginei

domingo, 20 de março de 2016

Sociedade condenada

"Quando você perceber que, para produzir precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em autossacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada."





 AYN RAND (1905-1982) filósofa e escritora russo-americana

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CLARICE E SUAS VERDADES II

"Eu - eu sou a minha própria morte. E ninguém vai mais longe. O que há de bárbaro em mim procura o bárbaro cruel fora de mim. Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às chamas da fogueira. Sou uma árvore que arde com duro prazer. Só uma doçura me possui: a convivência com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite."

(Clarice Lispector, Água Viva, Nova Fronteira, 1980, p.40)

CLARICE E SUAS VERDADES

"E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos".

(Clarice Lispector, Água Viva, Nova Fronteira, 1980, p.46)